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Poesia e Coisas

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leia uma mulher

Desenvolvi um site que faz recomendações de livros escritos por mulheres de acordo com categorias literárias. Se você deseja conhecer mais livros escritos por autoras, acesse: http://leiaumamulher.xyz

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é tarde – mia couto

É tarde,
nenhum sono
repõe o que não vivi.

É tarde,
nenhum amanhã
cura a antiga ferida
que em nós sangra.
Agora,
que não há sonho
posso, enfim, dormir.

Agora
é tarde demais para morrer.

Agora,
resta um único desfecho:
de novo, acordar por dentro.

E acordar sempre
até que volte a ser cedo.

Mia Couto. Em: Tradutor de Chuvas (2011).

Não sei se o suor do meu trabalho
E da marcha frenética despendida
Foram as causas do meu falho
Ou eu não entendi a despedida.

lampejo de saudade

A eternidade que a todos atordoa
O riso alto na noite febril
Que é sentir falta do acalanto de mãe
Formidável criatura despeço-me
Voltarei ainda no canto dos meus ancestrais
Porque a vida é ciclo ainda antes de ser
Até que tudo acabe
E pequenos indivíduos convulsos
Perdidos no transe do medo
Perguntem o que acontece
Já que a eternidade foi mera promessa
Tudo acabou quando acabará
Inclusive as unhas dos seus pés
E a vela da jangada do Dragão
Sobrevive apenas a lágrima
Num lampejo de saudade.

tratado da meia-culpa

Procurei nos caminhos encontrar
Mas era pífia encenação
Falta de grande propósito
E indisposição com o cosmos.

Eu tentei me ajustar (ou algo assim)
Todavia nunca deu certo
Porque caminho com os relógios
E não sei quando parar.

Extrapolei os meus limites por vezes
A mágoa que me causei, apesar de perdoada,
Não será esquecida
Por uma causa mais justa.

Confabulei com os meus próprios inimigos
Desta e de outras vidas
E por apenas um átimo de suspiro
Não fui covardemente vencida.

Sabotei sonhos que ainda não tinha
Para aprazer completos desconhecidos
E assegurar migalhas de comiseração
Quando ainda nem conhecia o pão.

Incentivei revolta e boicote
Anulei minhas pequenas satisfações
Em troca de absolutamente nada
Ou um poético vazio existencial.

Fui pessoa de não ter a mim
E negar-me mesmo três vezes
Encerrar portas, janelas e bueiros
Para não ouvir o galo cantar em protesto.

Mas então anunciaram liberdade
Com o repicar de sinos, de hora em hora,
Imaginei pilhéria de qualquer desalmado
E ignorei o sol da meia noite a convidar-me.

Mergulhei num sonho puramente fictício
Para acordar sem o beijo da princesa
Aturdida ainda, porém persistente
Como em uma visão nos áureos tempos árduos.

do desejo

A pulga do desejo me mordeu
Inoculou seu despudor
Sob a minha pele
Sobre a minha pele
As marcas da devassidão
Ainda contida
Mostram-se vivas em vermelho
Pura expressão da selvageria
Corrijo o tom do escândalo
Com o negro discricionário
Que não é luto
É muito mais.

Leia Mulheres 2018

Uma lista de livros escritos por mulheres maravilhosas que li em 2018 e recomendo:

  • Outros Jeitos de usar a Boca – Rupi Kaur
  • Olhos d’Água – Conceição Evaristo
  • Um Defeito de Cor – Ana Maria Gonçalves
  • Mulheres, Raça e Classe – Angela Davis
  • Kindred – Octavia E. Butler
  • O Conto da Aia – Margaret Atwood
  • Vento que Arrasa – Selva Almada
  • Carol – Patrícia Highsmith
  • A Vida Imortal de Henrietta Lacks – Rebecca Skloot
  • Perto do Coração Selvagem – Clarice Lispector
  • Frankenstein ou o Prometeu Moderno – Mary Shelley
  • Para Poder Viver – Yeonmi Park
  • As Três Marias – Rachel de Queiroz
  • Como Conversar com um Fascista – Marcia Tiburi
  • Ursula – Maria Firmina dos Reis

eu não quero que eu quero

Agora que tu me vês
Enxerga os meus olhos
Que tanto disfarcei
Atrás dos óculos embaçados
Eu me recolho em vida
Falta audácia em meu ser
Meus movimentos estilhaçam
Gero distração num caleidoscópio
Evito antes de tudo
O teu julgamento infalível
A tua imperfeição original
Assustam-me.
E eu não quero que eu quero
que me vejas
Enquanto me olhas
Talvez tu me entendas
E eu quero que eu não quero
que assim sejas.

sonhar é fácil

Não vai ser agora
Nem quando menos imaginar
Hoje ainda é hoje
Sonhar é fácil
E ainda assim desistimos
Como se hoje já fosse amanhã
E o destino o nosso dono
Que lucra com a agonia dos que sofrem
Mas disfarçam porque o passado não importa

Sonhar é mais fácil do que soltar pipa
Não tem a linha que amarra
E quanto mais alto
Mais as cores avivam-se
Não vai ser agora
Porque eu ainda estou buscando o ritmo
Mas pode ser daqui a uma semana
Sonhar é fácil e não paga imposto
Que eu pagaria para sustentar uma irmã
Para quem sonhar não é tão fácil
E vive algemada pelo destino
Sem poder andar o quanto corre
Com o coração silenciado

Sonhar é fácil pra mim
Eu nasci livre
Contrariando o destino
Dono dos meus iguais
Eu tenho sido livre
Bem mais do que uma pipa.

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