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Poesia e Coisas

Poesia. Poema. Conto. Crônica. Escrita.

hoje não era o dia

Hoje não era o dia de brincar com a sorte. Sonhei com o medo de perder os meus dedos e enquanto eles caíam em fatias grossas nem o sangue importava mais, a dor também já era outra coisa. As palavras que eu prometo são sempre boas e indulgentes, as que eu cumpro envergonham o salão das senhoras donas dos assentos das igrejas. Eu não lamento ter perdido o que nunca conquistei, entretanto, eu gostaria de conhecer um pouco mais do cheiro agridoce, cumprimentar os olhos chamuscados pela boca leviana. Os dias nunca são os mesmos, o ciclo é teórico. Na prática, um cílio que cai na gola da camisa é um novo cílio a cada vez, em oposição à lágrima que é sempre a mesma. As ações gloriosas para mitigar a sede é que devem ser outras, é uma decepção contar com o sentimento já endurecido.

penso mesmo na vida

Estranho saber que não nos veremos nunca mais
Talvez eu morra ouvindo Clementina na varanda
Ou você morra enquanto espera o trem
Mas não estava pensando em morte
Quando disse que não nos tornaremos a ver
Penso mesmo na vida
Em como ela construiu uma distância entre nós
Maior até do que voltar para casa

Cada vez que eu morro
É sempre o mesmo susto
Mesmo sendo o motivo justo
Não posso evitar o choro

busco causa

Esvazio conselhos e busco alma
Aspirando sentir até as palpitações
Esforço vem subnutrido com água
Causalidade ou silenciosa impressão
Torto é bem melhor que malfeito
Desconto a vidraça no espólio da terra
Brisa se entrega na boca do peito
Famélica, apática, aos breves, encerra.

Seu Nome – Maria Firmina dos Reis

Seu nome! em repeti-lo a planta, a erva,
A fonte, a solidão, o mar, a brisa
Meu peito se extasia!
Seu nome é meu alento, é-me deleite;
Seu nome, se o repito, é dúlia nota
De infinda melodia.
Seu nome! vejo-o escrito em letras d’ouro
No azul sideral à noite quando
Medito à beira-mar:
E sobre as mansas águas debruçada,
Melancólica, e bela eu vejo a lua,
Na praia a se mirar.

Seu nome! é minha glória, é meu porvir,
Minha esperança, e ambição é ele,
Meu sonho, meu amor!
Seu nome afina as cordas de minh’harpa,
Exalta a minha mente, e a embriaga
De poético odor.

Seu nome! embora vague esta minha alma
Em páramos desertos, – ou medite
Em bronca solidão:
Seu nome é minha idéia – em vão tentara
Roubar-mo alguém do peito – em vão – repito,
Seu nome é meu condão.

Quando baixar benéfico a meu leito,
Esse anjo de deus, pálido, e triste
Amigo derradeiro.
No seu último arcar, no extremo alento,
Há de seu nome pronunciar meus lábios,
Seu nome todo inteiro!…

Maria Firmina dos Reis. Cantos à Beira Mar (1871)

Leia Mulheres 2021

A lista de livros escritos por mulheres que li durante este ano (2021) e recomendo:

  • Vida querida – Alice Munro
  • E se eu fosse pura – Amara Moira
  • Justiça ancilar – Ann Leckie
  • Teoria feminista: da margem ao centro – bell hooks
  • Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus
  • Baú de miúdeza, sol e chuva – Cidinha da Silva
  • Ponciá Vicêncio – Conceição Evaristo
  • Poemas da recordação e outros movimentos – Conceição Evaristo
  • Histórias de leves enganos e parecenças – Conceição Evaristo
  • Holocausto brasileiro: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil – Daniela Arbex
  • Água de barrela – Eliana Alves Cruz
  • Morte matada – G.G. Diniz
  • O sertão não virou mar – G.G. Diniz
  • (R)Evolução: Eu e a verdade somos o ponto final – Lu Ain-Zaila
  • Poemas mudos – Mariana Zambon Braga
  • O dono do tempo (volume 1) – Renata Ventura
  • Tudo nela brilha e queima – Ryanne Leão
  • Calibã e a Bruxa: Mulheres, corpos e acumulação primitiva – Silvia Federici
  • Poemas – Wisława Szymborska

Para indicações de mais livros escritos por mulheres, visite: http://www.leiaumamulher.xyz

poema escuro

Ouço teu poema escuro
Na beira da diáfana lida
Cercando o meu lábio duro
Alço passos de despedida

Teu canto complexo e puro
Distorce a afeição combalida
Recorre aos ouvidos que apuro
E passa até breve acolhida

Pequenos pedaços, eu juro
Dúbia expressão colorida
Em tua voz transfiguro

Excelsa partilha partida
Sílabas as quais abjuro
E esqueço até outra vida.

segredosos

Veja bem se são teus olhos
Lentos como os meus
Nunca saltam quando digo adeus
Esmorecem em notas de piano
Claudica allegro na sala vazia
A chuva morna que nos atravessa
Sopra, aperta no passeio mágico
Bendiz o frio pálido longe do Norte
Morrem os segredos de festa
Eu não beijei ninguém
Nem mesmo encarei aquele tigre
Mas as lembranças não existem outras
Porque meus olhos fascinados logo
Desmancharam quando li teu nome

o desafio de perder a razão

O desafio de perder a razão
Em meio aos penduricalhos
Provoca escândalo, destino morto
Pastiche e fotossíntese
Na espera do novo plano
Eu nunca senti saudade
Mas sempre engoli desprezo
Ou era conciliação de passos
Fagulha incendiou a casa inteira

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